14 Abril 2007...16:46

o trocal e a dádiva

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- Encontrei na prateleira das novidades da biblioteca do ISPA um livro delicioso sobre a dádiva.

Se há sociedades em que a dádiva está na base das relações sociais, a sociedade moderna é baseada numa lógica de lucro.

No entanto, qual irredutível Astérix, “nem as sociedades arcaicas caracterizadas por relações de dádiva ignoram o mercado, nem as sociedades mercantilistas, como as actuais, liquidaram definitivamente as práticas de dádiva.”

Vemos a dádiva entre parentes e dentro de redes de solidariedade social, mais ou menos institucionais. Uma dádiva pode ser perfeitamente expontânea e ocasional, como ajudar alguém a mudar um pneu, ou então pode ser resposta a uma nessecidade permanente quando se dá uma esmola.

Os grupos de entreajuda são uma forma estruturada de dádiva que implica um mínimo de mediação entre quem dá e quem recebe. As regras destes grupos têm origem no funcionamento dos “alcoólicos anónimos”, onde quem recebe ajuda se transforma por isso mesmo num doador dessa mesma ajuda.

Um exemplo deste tipo de grupos são os LETS (Local Exchange Trading System), trocais em português (como o Trocal de Lisboa). E passo a citar:

“Os membros de uma associação LETS ou SEL, depois de ter estabelecido a unidade monetária que vai ser usada, – habitualmente a moeda é constituída na base do tempo ou unidades horárias – procedem, localmente e fora dos circuitos habituais das transacções mercantis, às trocas de bens, de serviços e de saberes; uma troca de natureza, obviamente, diferente da que suporta a troca de mercadorias.”

E continua:

“Estes sistemas e associações representam uma nova forma de cidadania e de aprendizagem da democracia. Podem ser pensadas, também, como um instrumento de desenvolvimento local ou de luta contra a exclusão social. Podem ser interpretados, enfim, como uma forma de subsidiariedade económica num momento em que os estados perdem capacidade e poder de protecção social a favor dos mais necessitados. No fundo, trata-se de práticas socio-económicas que se situam na tradição da dádiva e das trocas monetárias sem cair na lógica do mercado e do dinheiro.”

Adaptado de: Adolfo Yañez Casal 2005 “Entre a Dádiva e a Mercadoria – Ensaio de Antropologia Econónica” Capítulo VII, Edição do Autor.

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